Do JUNKSPACE para LUGAR ALGUM: possíveis dobras ou itinerância, permanência e performatividade corporificadas

por Stephanie Dahn Batista, sobre a exposição LUGAR ALGUM;

 

Do JUNKSPACE para LUGAR ALGUM: possíveis dobras ou itinerância, permanência e performatividade corporificadas

 

 

A exposição “LUGAR ALGUM” de Ângelo Luz convida para uma envolvente instalação configurada por fotografias, lambes de grafites, placa de metal, som e vídeo. Este conjunto bastante heterogêneo se adequa à arquitetura institucional, assumindo-a como uma moldura que proporciona e até condiciona uma relação do trabalho de arte com a localidade, um site. Para este site vieram as falas de vários lugares de Curitiba e Frankfurt provocando uma relação específica entre o trabalho de arte e seu site, não baseada na permanência física dessa relação, mas sim no reconhecimento da sua impermanência móvel e discursiva. Assim o trabalho de Ângelo Luz coleta imagens de lugares marginais, dos grafites murais dos subúrbios, das regiões industriais e vías ferroviárias das cidades habitadas e visitadas. Entendo a cidade como uma produção cultural, quer dizer, um grande texto complexo, indeterminado e aberto (Fiske, 2000) o artista traz narrativas de lugares abjetos da urbe para dentro do espaço da arte gerando múltiplos significados e experiências, reescrevendo, marcando e dando continuidade para formar este texto urbano. Sobrepõe-se os discursos coletados em imagens de containeres, turbinas e guindastes, na presença de sua matéria e de seus sons metálicos das periferias de Frankfurt, ou a bricolagem diversa das barracas em favelas e os grafites coloridos na periferia curitibana, colocados em relação com os discursos institucionais da arte, gerando assim um trabalho site-oriented, uma modalidade do site-specific proposta por Mion Know (2002).

Durante mais de um ano criou-se um grande arsenal de imagens destes chamados “Junkspaces”, percorridos pelo artista. Junkspace são estes lugares marginais, espaços urbanos e arquitetônicos produzido como efeito colateral da modernização e globalização, um tipo de lixo, um espaço negativo dentro do texto urbano que sempre muda, mas nunca se desenvolve (Koolhaas, 2002).

Desta forma, LUGAR ALGUM é um possível resultado materializado a partir do projeto conceitual “JUNKSPACE” que demandou uma intensa entrega por parte do artista em vivenciar deslocamentos e descontinuidades entre Curitiba e Frankfurt.

Embora nós nos deparemos com esta presença física dos trabalhos, o legado material possível para esta pesquisa artística – quase antropológica – se inscreve no próprio corpo do artista, assumindo uma outra escala tanto poética como discursiva. São processos internos e corporificados, embodied, durante um ano e que ganharam neste momento sua visualidade em formato de linguagens artísticas, materialização expressiva circunscrevendo idéias em torno da relação: corpo relacional, lugar relacional e tempo relacional por meio do caminhar.

Em analogia a este processo relacional, o trabalho de Ângelo Luz evoca o conceito de DOBRA de Gilles Deleuze entendendo-o aqui como ferramenta para pensar à apreensão dos lugares contemporâneos e a experiência subjetiva. A dobra exprime tanto um território subjetivo, quanto o processo de produção desse território, operações que fomentam de um lado a subjetividade enquanto lugar de existência, e de outro lado à subjetivação enquanto processo da produção destes lugares existenciais. No momento do deslocamento para um lugar estranho, no caso de Ângelo Luz para a Städelschule em Frankfurt, estas operações ganham uma tarefa emergencial que necessitam estratégias novamente inventadas porque as estabelecidas produções de identidade e segurança não funcionam mais neste outro lugar. É a dobra, quero dizer, que contorna esta constituição da relação consigo e com o mundo, no caso entre o artista e o mundo desconhecido.

Como foi construída por Ângelo Luz esta relação entre si e os junkspaces, cuja experiência materializada podemos ver hoje?

Ele assumiu a atitude de artista itinerante, não apenas no sentido de viajar de um país para o outro, mas sim no sentido de assumir os deslocamentos e processos como fatores constituintes de sua obra, baseando sua ação numa relação com o lugar e suas implicações. O artista itinerante pode ser entendido como um desdobramento da arte site-specific e sua mobilidade particular. Ângelo Luz optou por perceber o espaço através das ações de andar e caminhar, estabelecendo assim um método de trabalho para a aproximação e apropriação do lugar a ser observado. Assim o jovem artista tomava o trem do metrô até sua parada final e percorria várias direções dentro do mapa de Frankfurt, andando nas regiões periféricas industriais e florestas. O caminhar remete para o artista à figura do flaneur que circula e observa, sendo um conceito de Walter Benjamin sobre Charles Baudelaire, pensador da arte e vida moderna no século XIX. Podemos também chamar esta escolha a favor do caminhar um método um tanto antropológico, atitude por quais muitas vezes artistas contemporâneos optam para dar conta da complexidade de espaços, lugares e sujeitos. “O lugar só pode ser percebido como uma extensão do corpo, especialmente o corpo em deslocamento, passando através e se tornando parte da paisagem” (Lippard, 1997, p. 124). Neste pensamento de Lucy Lippard unem-se numa triangulação itinerância, corpo e lugar. O corpo do artista que transita entre os lugares já está em negociação e subjetivação por si só, sendo que na sua relação com o lugar este processo existencial ganha continuidade e permeabilidade – condições de sobrevivência nesta dobra entre si e o mundo inscrito no corpo. Este corpo de artista que se desloca para depois permanecer sofre mudanças, influências e inscrições constantes. Nunca mais é o mesmo neste viés recíproco do território existencial móvel e flexível. Consta ali a performatividade da existência do artista itinerante em si. A figura do flaneur incorpora valores de efemeridade e traços de performatividade que permeiam toda pesquisa artística de Ângelo Luz. As captações de olhares nestas caminhadas na Alemanha eram uma busca de estabilidade pela limpeza da forma e equilíbrio da cor que se manifestam nas fotografias expostas.

 

O espaço percorrido é o espaço percebido e vivenciado. Por sua vez, perceber o espaço significa avalia-lo, lembra-lo, compara-lo e julga-lo sempre no intuito de interpretar e inventar a realidade. Entre o sujeito que percebe e o espaço há instrumentos de apropriação que são modelos culturais aparentemente naturalizados. A perspectiva cônica é a ferramenta inventada mais tradicional que se coloca entre o sujeito e o espaço, como meio do lugar objetivado, medido e homogêneo. Uma concepção alternativa que perpassa este espaço geométrico é vinculada a movimento e corporalidade submetendo-se a processos, mudanças e situações. Um espaço vivenciado é um espaço narrado e situacional, possível por meio do corpo, culminando assim na figura do artista itinerante que registra as percepções por meio do seu corpo em movimento. Neste sentido a poética do espaço no trabalho de Ângelo Luz segue as implicações que acontecem através da transposição de perspectiva de um calculo estratégico para um tático. O tático não se serve mais da perspectiva cônica, mas sim de processos que necessitam criar novos caminhos de olhares através do espaço, que permite outras formas de apropriação e conhecimento. Esse caminhar é poesis. De forma corajosa, Ângelo Luz restitui a corporidade do sujeito para a percepção do espaço. Poesis como ato de viajar, andar pelos lugares que podem abrir ou não, podem remeter ou não pontes da memória superando o tempo. O desconhecido exige da memória de se relacionar em novos contextos e se integrar em novas configurações. Assim o lembrar torna-se um ato poético, uma poesis de apropriação impulsionado pela itinerância, permanência e performatividade do corpo-artista como vejo que as duas fotografias, auto-retratos representando o artista na selva brasileira e na paisagem congelada alemã, testemunham esta intenção.

 

A exposição LUGAR ALGUM apresenta os registros das percepções corporificados dos lugares vivenciados, nem todos destes registros coletados durante um ano são arte, porém são vida. No entendimento do artista a vida é colocada antes da arte. As fotografias, vídeos, sons e lambes se relacionam e propõem um conjunto poético. Chama atenção a frieza e limpeza das imagens das regiões industriais em Frankfurt, que foram filtradas pelo olhar do artista. Limpeza formal e silenciosa como necessidade de dar ordem e estabilidade às coisas. O som da instalação e a placa metálica ainda lembram do ruído e caos destes junkspaces. A frieza destas fotografias é contrastada pelos lambe-lambes com padrões coloridos dos grafites urbanos de Curitiba. Além da força pictórica eles trazem junkspaces com a voz dos marginais da revolução negra, o feminismo pós-moderno e a própria negação do sistema de arte e políticas opressivas como o fascismo. Ângelo Luz traz a partir de sua percepção corporificada e vivenciada este conjunto discursivo para o discurso da instituição de arte. Ele cria uma geografia subjetiva de pensamentos sobre acontecimentos discursivos e poéticos encontrados durante as caminhadas. O mundo em si é o acontecimento. Ora, a dobra, aquela inflexão entre corpo relacional, lugar relacional e tempo relacional que o trabalho de Ângelo Luz incorpora, é a expressão do mundo possível. Destarte, o artista assume além da figura do flaneur, a atitude do nômade, personagem conceitual deleuziano. O nômade habita a multiplicidade propondo uma geografia de pensamento que se coloca em movimento, o nômade não se deixa capturar pelas armadilhas do instituído. Não é por acaso que o nomadismo é concomitante com a atual prática site-oriented. As dobras se juntam. Assim, Ângelo Luz andou por muitos trilhos, inventando aproximações, métodos de sobrevivência ou de experimentação, tudo num passo por passo, sem ter a noção do lugar aonde chegará, deslocado ou relocado.

 

O trabalho de Ângelo Luz, visto a partir do conceito de dobra, mostra a importância de questionar e a ? resistir a um mundo que se oferece como evidente, plausível e previsível. É na força da itinerância, permanência e performatividade corporificados que pode se construir e explicar a relação com o mundo que Ângelo iniciou nesta experiência humana e artística. Portanto, a exposição LUGAR ALGUM apresenta e compartilha este desafio de marcar seu território existencial e o processo da produção deste, afirmando o próprio mundo como potência de invenção: nela é a cada momento o novo que produz esse lugar algum.

 

Dr.ª Stephanie Dahn Batista

Historiadora de Arte

 

Referências

 

DELEUZE, Gille. Lê pli: Leibniz et lê baroque. Paris: Minuit, 1988.

Fiske, John. Lesarten des Populären. Wien: Turia und Kant 2000.

KOOLHAAS, Rem. Junkspace. In: October, Vol. 100, Obsolescence. (Spring, 2002), pp. 175-190.

KWON, Miwon. One place after another: site-specific art and locational identity. Cambridge: The MIT press, 2002.

LIPPARD, R. Lucy. The lure of the local: senses of place in a multicentered society. New York: The new press, 1997.

LUZ, Ângelo. Junkspaces: Trilhas incoporadas pelo olhar do Flaneur, disponível em: https://angeloluz.wordpress.com/

MATESCO, Viviane. O corpo na arte brasileira. In: Metacorpos. São Paulo: Paço das Artes, 2003.

MICHAUD, Yves. Visualizações – O corpo e as artes visuais. In: CORBIN, Alain; COURTINE, Jean-Jacques; VIGARELLO, Georges. História do corpo. As mutações do olhar: O século XX. Petrópolis: Editora Vozes, 2008.

SOARES, Carmen. Corpo e História, Campinas: Autores Associados, 2001.

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